2º Segunda Temporada. Çirculação da Balbúrdia - Laila Vieira de Oliveira

Quinto e último encontro da segunda temporada do Çirculação da Balbúrdia foi realizado pela EFoP em 12 de novembro de 2020 a partir da dissertação de mestrado: “Escola de mentira ou escola de verdade? Sobre a garantia do direito à educação de adolescentes em cumprimento de medida de internação provisória em Belo Horizonte”


Na quinta-feira passada do dia 12 de novembro, o Çirculação da balbúrdia realizou o quinto e último encontro da segunda temporada, com a convidada Laila Vieira de Oliveira, para debater sua dissertação de mestrado, defendida em 2018 intitulada “Escola de mentira ou escola de verdade? Sobre a garantia do direito à educação de adolescentes em cumprimento de medida de internação provisória em Belo Horizonte”. Para ler o texto acesse a nossa biblioteca, lá você encontra as produções acadêmicas debatidas no Çirculação e também outros textos.


Laila Vieira de Oliveira é mestre em Educação pela Universidade Federal de Ouro Preto (2018), possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (2010) e trabalhou como Educadora Cultural nas unidades de privação de liberdade de adolescentes em Belo Horizonte e em Ribeirão das Neves.


Durante a apresentação, Laila compartilhou alguns processos de sua investigação, e a importância de uma equipe disposta para que aquela pesquisa fosse feita. Foi investigada a relação dos meninos em privação de liberdade com a escola. A autora citou a música “tribunal de rua” do cantor Rappa em termos de ilustração da realidade na qual os meninos privados de liberdade vivem. Laila ressalta a importância da pesquisa enquanto mudança e posicionamento político e aponta, enquanto militante, o quanto os espaços de privação de liberdade se assemelham muito as prisões.


Laila sinaliza que o lugar do qual parte a pesquisa tem relação com sua própria trajetória militante. Participou nas Brigadas Populares (2007-2012), onde construíram um grupo social chamado “Grupo de amigos e familiares de pessoas privadas de liberdade” que se ampliou nacionalmente. Sua participação foi através da própria oferta de educação. Comenta que trabalhou também em algumas ONGs, na área de Arte educação, e nestes lugares trabalhou com oficina de letras, ligada ao texto, poesia e conto. Trabalhou até 2016 em instâncias de privação de liberdade provisória e de internação. Começou a pensar sobre o projeto de pesquisa e tentou inscrever o projeto na área de direito, serviço social, até tentar na educação. Passou na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e apresentou seu projeto na linha desigualdades e diversidades.


Conta que durante a parte de pesquisa de campo, teve oficinas cheias, com 170 meninos, e comenta de seu cuidado em conversar e ter contato com todos daquele meio, para não inserir algo desprovido e sem um sentido para os próprios participantes. Como material para discussão, fez entrevista com 6 adolescentes e relata a dificuldade de realizá-las pelo próprio contexto e pela dificuldade de aceitação da pesquisa entre adolescentes e suas famílias. Para a realização das entrevistas foi criado uma espécie de processo coletivo, com a ajuda das equipes (tanto dos agentes quanto de psicólogas).


Além das dificuldades de aceitação e interesse dos jovens em relação a entrevista, conta que o período em si é geralmente uma experiência que os jovens não querem se lembrar depois. Laila problematiza na discussão de seu trabalho o fato da escola estar dentro desse espaço de privação de liberdade, pois enquanto o sujeito que estiver nessa condição pode sair para ir ao cinema ou caso precisar de consulta médica, então por que a escola de um menino preso é dentro da cadeia?


Em relação ao contexto dos meninos: dos 6 entrevistados, 5 estavam fora da escola; 3 tinham familiares presos; e eram cuidados em geral apenas pelas mães e avós. Em seus relatos apareceram falas sobre falta de espaços de cultura, de acesso à escola, de campo de futebol, entre outros espaços de lazer e recreação. A autora então se pergunta: por que a oferta do estado é tão focada nos espaços de privação?


Ao comentar sobre o título de sua dissertação comenta que surgiu a partir de uma entrevista com um dos meninos. Quando Laila pergunta sobre o tempo em que um deles ficou fora da escola, escuta como resposta “aqui nessa escola de mentira ou na escola de verdade?”. A autora chama atenção para o fato de que ao mesmo tempo que algumas escolas em liberdade possam ser de mentira quando não oferecem tantas atividades, com poucos recursos, ainda assim são mais verdadeiras do que a escola em privação de liberdade.


Após sua apresentação, foram feitas perguntas sobre os aparatos do Estado e qual a função que cumprem, bem como a importância de pensar a função que cumpre a escola nas diferentes camadas sociais. Você pode conferir essa e outras questões assistindo o registro em vídeo disponível no canal da EFOP no YouTube.