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Relato do Grupo de Leitura “psicanálise e psicoterapia” de Radmila Zygouris


Escrito por: Giulia Molossi Carneiro e Marina de Almeida Dias Mello Ulguim


O Grupo de Leitura da obra “Psicanálise e psicoterapia” de Radmila Zygouris foi organizado pela Escola de Formação Política da Classe Trabalhadora - Vânia Bambirra (EFoP) e pelo Projeto Iara Iavelberg, que tem por objetivo criar um espaço de acolhimento e escuta para o sofrimento social, oferecendo os atendimentos psicológicos, psicanalíticos e educacionais; além de debates, escutas coletivas e formações.


Este Grupo de Leitura foi o primeiro realizado em 2023 pela EFoP, também o primeiro espaço aberto de discussão depois do lançamento do Projeto Iara Iavelberg, o qual ocorreu no dia 10 de dezembro. Foram três encontros presenciais para discussão, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com cerca de duas horas de duração cada um.


Sobre a autora:

Cidadã francesa de origem iugoslava, Radmila Zygouris foi membro da Escola Freudiana de Paris até sua dissolução por Lacan, em 1978. Foi cofundadora da revista L’Ordinaire du psychanalyste, publicada em Paris entre 1973 e 78. Sua abertura para todas as boas ferramentas teóricas da psicanálise anglo-saxã, francesa e outras, assim como para as ciências humanas em geral, e sua radical atitude crítica frente a qualquer dogmatismo e ortodoxia são marcas de sua atuação teórico-clínica e institucional. Essas características a fazem transitar com liberdade e criatividade admiráveis, entre teorias, práticas e desafios, nestas vivenciados. É autora dos livros Ah! As belas lições, Pulsões de Vida, O Vínculo Inédito e Nem todos os Caminhos Levam a Roma.


É possível acessar diversas de suas produções através do site https://www.radmila-zygouris.com/.


Sobre a obra:

Segundo a Editora do livro, Via Lettera, este texto é o resultado escrito do encontro com Radmila Zygouris realizado em São Paulo em outubro de 2009 no Grande Auditório do MASP, organizado pelo Centro de Estudos Psicanalíticos, sob a direção de Ernesto Duvidovich e Walkiria Del Picchia Zanoni. Primeiramente foi gravado, transcrito e posteriormente revisado pela autora.


O livro é dividido em três partes:

  1. Psicanálise e psicoterapia

  2. O espaço “entre”

  3. A história do viajante


A proposta da autora no livro é muito revigorante. Aos analistas, cabe pensar e elaborar a partir de uma história que carregam, mas sempre ousando e não aceitando respostas velhas a novas perguntas. “A psicanálise está, desde seus primórdios, à procura de seus limites. Ela não pode se constituir em disciplina autônoma, nem evoluir teoricamente, se cessar de se interrogar quanto às suas fronteiras com as atividades vizinhas, às demais terapias da palavra que, na sua grande maioria, surgiram a partir dela. Sem limites conceituais e técnicos, a psicanálise tanto pode se diluir nas práticas terapêuticas, quanto se transformar numa mera transmissão de posturas enfeudadas em um dogma travestido de teoria”; escreve Radmila.


Sobre os encontros:


No primeiro encontro, a discussão girou em torno da diferença entre psicoterapia e psicanálise, principal temática abordada por Radmila no primeiro capítulo, intitulado Psicanálise e psicoterapia. A primeira grande diferença apresentada é a de que a psicoterapia se satisfaz em diminuir o sofrimento, enquanto a psicanálise visa uma modificação que vai além da supressão dos sintomas, podendo, inclusive, aceitar sua persistência.


A autora é muito perspicaz em abordar questões atuais que são difíceis de encarar de uma maneira muito honesta. Citamos duas que são bem interessantes.


Radmila discute que muitos pacientes atualmente procuram análise para se queixar de problemas do cotidiano, como a perda de pessoas, doenças e infelicidades em geral. Antes era outro o lugar que era procurado, o que pode significar uma incapacidade atual de partilhar as infelicidades da vida com pessoas que nos são próximas, como amigos, familiares, vizinhos, entre outros. Como se tivesse se tornado banal procurar um psicólogo ou psicanalista e, por consequência, uma patologização dessas infelicidades comuns da vida cotidiana. Com isso, a autora busca ir na contramão da patologização exacerbada de situações.


A segunda provocação importante da autora diz respeito às identificações dos sujeitos com o seus sintomas e a necessidade desta identificação ser agente de mudanças, ao invés de tornar-se uma naturalização do lugar do sujeito, que se vincula ao ocorrido de maneira estruturante. “Estamos aqui, uma vez mais, perante a relação que o normal e o patológico mantêm com as demandas de determinada época. O sofrimento é menor quando o sujeito encontra uma área de reprodução entre seus semelhantes”, escreve a psicanalista.


O pensamento que Zygouris provoca é: qual o lugar que as patologias, identidades e diagnósticos cumprem na sociedade hoje? Não teriam uma função de fechamento de significados, de prevenção de questionamentos e rupturas e de diminuição da criatividade para se pensar como sujeito?


Algo relevante de destacar sobre a autora é que ela foca, através da narrativa de seus casos, no fato de que a clínica é um espaço de pesquisa; ao mesmo tempo que se usa aquilo que veio antes de nós na história da psicanálise, nós lidamos como novos sintomas, de uma sociedade capitalista que provoca modificações nas formas do trabalho e que atualiza as formas de sofrer. Por isso, há que se atualizar a teoria. Se não, será que a psicanálise não pode estar contribuindo com a situação em que nos encontramos hoje, de despolitização? Oferecendo muito rapidamente uma análise considerada “clássica”?


No segundo encontro discutimos o final do primeiro capítulo e o capítulo dois, intitulado O espaço “entre”. Essas duas partes são bem focadas em discutir o que a autora considera que constitui uma análise.


Sobre isso, cabem alguns comentários mais breves daquilo que mais foi discutido. Dos aspectos que apontam algum indício de uma psicanálise:

  1. Que haja o desejo do analisando de pensar a própria responsabilidade nos aspectos da sua vida, pois algumas pessoas têm tendência a iniciarem uma psicanálise, mas não entrarem em um processo de análise, onde suas ideias e visões são questionadas. Em contraposição, há indivíduos que se dispõem a análise para compreender seus processos de vida.

  2. Os movimentos transferenciais. A transferência, sendo ela um fenômeno fundamental para a ocorrência de um processo de análise. A transferência, de modo geral, se caracteriza pelo que projetamos no outro, através de repetições, de expectativas e inferências do que supõe ser o outro. A contratransferência, de acordo com a autora, se caracteriza pelas projeções que o próprio analista fará em relação ao analisando e da situação que se apresenta. Através de relatos de seus casos, Radmilla discorre sobre o processo de contratransferência e seus efeitos no ambiente de análise. A autora afirma que o processo de contratransferência pode trazer mais efeitos do que a própria transferência, fazendo um alerta aos futuros psicanalistas para observarem como está se desenvolvendo os processos de identificação e estabelecimento de vínculo com os analisandos, e qual o grau de materialidade acerca das expectativas e pressupostos em relação aos pacientes atendidos.

  3. A relação na psicanálise é sempre de dois, na psicoterapia o caso é o paciente. Na construção de uma relação de análise, não se trabalha unicamente o caso do analisando, mas sim do analisando, analista e o que é construído no “entre” os dois.


Além disso, outra parte do texto que foi bastante discutida nos encontros foram os dois pontos cegos de desvio da psicanálise, segundo a autora, que são o dinheiro e a tendência de grupos de analistas de se tornarem garantidores das normas sociais.

Sobre o dinheiro, Zygouris questiona a fórmula de que quanto mais cara uma análise mais desejo está envolvido. Faz isso ilustrando com um de seus casos que foi bastante duradouro, em que o foco era mesmo no desejo de análise e o pagamento era aquele possível a cada período da vida do paciente. A autora brinca, assim, com a questão do dinheiro, o colocando como um tabu parecido com o incesto pela maneira que a questão é trabalhada por alguns analistas, como se tivessem horror a análises gratuitas.


O efeito disso é que os analistas costumam encaminhar os pacientes que não podem pagar para instituições. E, segundo a autora, é do interesse da psicanálise desconfiar do Estado.


Há uma passagem muito interessante sobre dinheiro no texto: Gostaria de ressaltar que a maioria das análises gratuitas que conduziu se passaram bem. Não foram nem melhores nem piores que a maioria das análises pagas. Isso porque os analisandos se dão, muito rapidamente, conta daquilo que seu analista pensa, onde ele se situa politicamente, se é frágil ou não, se precisa de certezas, de sinais visíveis de riqueza, se consegue ou não desafiar as ideologias vigentes. E eles podem perfeitamente compreender que o analista, na maioria das vezes, vive de seu trabalho e precisa de dinheiro para fazer girar a sua máquina. Mas é de uma soma total que o analista necessita e não daquilo com que cada um pode contribuir.


Sobre a segunda questão, ela questiona o aparecimento público de alguns analistas que produzem nas mídias normais sociais e questiona aqueles que remetem a uma valorização da lei paterna.


Nesse encontro, também foram discutidos alguns conceitos chaves para a parte do texto, como inconsciente, repetição, regressão, interpretação, sintoma, transferência e contratransferência a partir de alguns dicionários da psicanálise.


No terceiro e último encontro foram retomados os debates do primeiro e do segundo encontro e focamos em estruturar na discussão a diferenciação entre psicanálise e psicoterapia, foco do livro.


Essa obra tem um valor reflexivo bem alto, por isso, além de apresentar debates espinhosos e necessários, foi escolhida para ser trabalhada no primeiro Grupo de Leitura focado em discussões coletivas realizadas pelo Projeto Iara Iavelberg.


Com este pequeno relato, buscamos apresentar alguns dos debates centrais que a autora apresenta e que os participantes do grupo de leitura apontaram também como aspecto central. A ideia é apresentar algumas questões e poder avançar no debate. Segundo Radmila, a psicanálise está sempre se fazendo, é uma prática em ato. A psicanálise existirá enquanto existem psicanalistas vivos a reinventando. Foi um pouco nessa direção que caminhamos e pretendemos seguir.

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