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Guia de Leitura #1: A classe trabalhadora, de Marx ao nosso tempo

Da curadoria do Clube do Livro à Esquerda Qual a perspectiva específica do tratamento dado por Karl Marx e Friederich Engels acerca da categoria “classe”? De que maneira o termo tem sido utilizado para reforçar perspectivas de manutenção da ordem social? Qual a importância da centralidade da luta de classes para compreender as dinâmicas cotidianas? Todas essas e muitas outras questões fundamentais ao nosso tempo são elaboradas por Marcelo Badaró em seu livro “A classe trabalhadora: de Marx ao nosso tempo”. Este é o primeiro de uma série de livros que a curadoria do Clube do Livro à Esquerda preparou para enfrentar os dilemas experienciados durante essa dura conjuntura.


Como pensar o avanço da estratégia socialista diante de uma conjuntura que parece esfacelar toda a solidariedade potencial de nossa classe? No Brasil, de um lado a burguesia vem dando às cartas para a superação da crise econômica catalisada pela

pandemia do novo coronavírus; por outro, a classe trabalhadora vem pagando com sua própria vida os custos impostos pela dinâmica do capital. A cada dia fica mais explícito o projeto genocida em curso no país. Se o golpe de 2016 evidenciou que não há mais espaço para conciliação, quais alternativas de enfrentamento restam aos trabalhadores? De início, fica cada vez mais notável que a estratégia de fragmentação da classe trabalhadora, intensificada pela relação capital-trabalho após a reestruturação produtiva na década de 1970, está cada vez mais presente nas mediações que os trabalhadores estabelecem com os aspectos cotidianos do tecido social. Frente à deterioração das condições de vida e a ausência de perspectivas de superação destas, as alternativas propostas pelo capital ganham corpo. As saídas individualizantes impostas pela classe dominante, como o empreendedorismo e o corporativismo, aparecem como a única alternativa possível. A ideologia do empreendedorismo diz bastante sobre a condição atual dos trabalhadores. Recai sobre o indivíduo os custos da crise por meio da incorporação subjetiva das demandas do capital. Não seria mais um chefe ou gerente quem determina as metas de trabalho — tal como se observa nos modelos fordistas de produção —, mas é o próprio sujeito que se coloca como mandatário e executor da tarefa. Do ponto de vista do capital os ganhos são duplos. Em primeiro lugar, perde-se de vista a separação entre as exigências do capital e as cobranças que o próprio indivíduo coloca para si. Em segundo, os laços de solidariedade de classe que poderiam ocorrer em nome do combate de um inimigo comum vão perdendo espaço. O companheiro ao lado passa a ser visto como adversário e o egoísmo de classe ganha corpo. Além do empreendedorismo, as perspectivas corporativistas também fazem ruir os possíveis laços de classe. Com o fortalecimento do novo sindicalismo, patrão e empregado não aparecem como pólos opostos no interior da luta de classes, mas sim, como colaboradores que podem eventualmente constituir objetivos comuns. A busca por resultados imediatos minam as perspectivas de classe, fortalecendo os interesses apenas de grupos específicos que eventualmente conquistam pequenas vitórias parciais. Com essa dinâmica em cena, a curadoria da EFoP escolheu o primeiro livro do mês como um título que pode reunir alguns dos aspectos fundamentais em torno da categoria “classe trabalhadora”. Lembremos que as mediações que o sujeito estabelece com a vida social podem ser diferentes a depender da forma de consciência experienciada. Para que uma classe consiga expressar seus anseios particulares como universais, é preciso impor uma concepção compartilhada. A classe dominante, apesar de suas diferenças internas, reúne-se constantemente em uma unidade, em prol da manutenção da ordem. Contudo, sua união é sempre frágil, visto que os próprios mecanismos de concorrência e centralização de capitais impedem uma solidariedade permanente. Por isso, apenas a classe trabalhadora pode, de fato, expressar suas concepções de mundo particulares como verdadeiramente universais. Contudo, é necessário ter em vista que os trabalhadores não necessariamente se comportam como classe. Sobretudo nesta conjuntura, na qual os mecanismos do capital roem cada vez mais os laços de solidariedade, torna-se cada vez mais árdua a disputa pela conformação do sujeito revolucionário universal. Este, que se apresentará sem predicados e constituirá um novo horizonte verdadeiramente rico para toda a sociedade. Com essas questões de fundo, escolhemos o livro de Marcelo Badaró para nos auxiliar, em primeiro lugar, no resgate histórico dessa categoria tão importante para os estudos marxistas. Em segundo, para reconstituir a centralidade da dinâmica da luta de classes para o enfrentamento dos desafios que temos pela frente. Esperamos que esta obra possa suscitar bons debates aos nossos assinantes, e que as elaborações realizadas individualmente encontrem um espaço de socialização profícuo no nosso debate coletivo. Boa leitura!

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