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Guia de Leitura #7 Teoria Marxista da DependĂȘncia: problemas e categorias, de Mathias Seibel Luce

  • 17 de abr. de 2022
  • 5 min de leitura

Teoria Marxista da DependĂȘncia: problemas e categorias

Mathias Seibel Luce


A Teoria Marxista da DependĂȘncia (TMD), desenvolvida entre finais do anos 1960 e inĂ­cio dos anos 1970, busca desvendar as leis e dinĂąmicas que regem a formação particular das economias dependentes latino-americanas. Como nos ensina Marx, o concreto nada mais Ă© do que a sĂ­ntese de mĂșltiplas determinaçÔes. A anĂĄlise de objetos concretos exige articular, portanto, suas determinaçÔes mais gerais e abstratas com as determinaçÔes especĂ­ficas e historicamente localizadas. A formação capitalista da AmĂ©rica Latina, em sua concretude e especificidade histĂłrica, exige apreender nĂŁo apenas as leis gerais do modo de produção, como tambĂ©m as tendĂȘncias que emergem das particularidades histĂłricas da regiĂŁo. Esse Ă© o mĂ©rito dos formuladores da TMD: teorizar a realidade concreta da AmĂ©rica Latina formulando categorias concretas. Os teĂłricos da TMD conseguem esse feito articulando a lei marxista do valor e as teses leninistas do imperialismo com as particularidades do subcontinente. SĂŁo essas categorias mais concretas que Mathias Seibel Luce, atravĂ©s de uma sĂ­ntese teĂłrica, resgata neste livro.


Luce executa este trabalho retomando os textos clĂĄssicos da TMD e recuperando as categorias lĂĄ desenvolvidas. Nesse processo de recuperação histĂłrica das categorias da TMD, Luce discute lacunas, rebate crĂ­ticas e esclarece deturpaçÔes teĂłricas. AlĂ©m de refinar o estudo de tais categorias, buscando ser fiel ao sentido exato que estava sendo dado por seus formuladores, Luce tambĂ©m contextualiza, durante todo o livro, a importĂąncia anĂĄlitica da TMD articulando uma sĂ©rie de levantamentos empĂ­ricos compactados em quadros e tabelas. ​ A divisĂŁo do livro Ă© clara e direta. Luce vai, a cada capĂ­tulo, resgatar e refinar uma categoria central da TMD. Esse percurso nĂŁo Ă© aleatĂłrio, mas segue o fio do prĂłprio desenvolvimento teĂłrico. Por isso, ele começa com a categoria “transferĂȘncia de valor como intercĂąmbio desigual”, que Ă© a categoria ontologicamente central da TMD e da qual decorrerĂŁo as demais. É na forma como se produz e se apropria o valor no mercado mundial que estĂŁo as causas centrais para as desigualdades estruturais que marcam as economias dependentes. ​ No capĂ­tulo 2, Luce apresenta a cisĂŁo nas fases do ciclo do capital na economia dependente, como consequĂȘncia da transferĂȘncia de valor da periferia ao centro. Aqui fica expresso um profundo rigor dos teĂłricos da TMD com as formulaçÔes que Marx desenvolve na obra O capital. Sem se limitar Ă  estrita produção de valor, teorizado no Livro 1 d’O capital, os teĂłricos da TMD vĂŁo analisar tambĂ©m a relação dialĂ©tica entre a produção e a circulação. A tese Ă© que, durante a formação do mercado mundial do capital, houve um divĂłrcio entre a estrutura produtiva e as necessidades das massas, nas economias dependentes. Diferente dos paĂ­ses centrais, em que hĂĄ uma industrialização “orgĂąnica”, em a produção de bens de consumo impulsiona a produção de bens suntuĂĄrios e bens de capital, nos paĂ­ses dependentes hĂĄ um prolongamento da produção de bens de consumo enquanto os bens de capital, como maquinaria e tecnologia, sĂŁo subsidiados pelo capital estrangeiro. Isso expĂ”e um aspecto estrutural importante na manutenção da condição dependente dessas economias. Mais capitalismo, mais dependĂȘncia. ​ Como Ă© visto no capĂ­tulo 1, com a formação dos preços de produção, hĂĄ uma transferĂȘncia de valor da periferia ao centro, das indĂșstrias menos tecnolĂłgicas Ă s mais tecnolĂłgicas. Luce aponta, no capĂ­tulo 3, como os setores dependentes e menos produtivos (com menor composição orgĂąnica do capital), sĂŁo compelidos a compensar essa transferĂȘncia de valor. Na impossibilidade de nivelar a composição orgĂąnica e tĂ©cnica do capital interno (produtividade), resta apenas elevar a taxa de exploração (taxa de mais-valor). Seja pelo prolongamento da jornada, pelo aumento na intensidade ou pela simples redução salarial, o que hĂĄ Ă© uma remuneração da força de trabalho abaixo de seu valor. Eis a superexploração da força de trabalho. Dentre as confusĂ”es desfeitas por Luce acerca da categoria superexploração, uma merece atenção: superexploração Ă© uma categoria relacional e sĂł faz sentido analĂ­tico se inserida na malha de relação dependentes que se relacionam com as transferĂȘncias de valor para o centro e com a cisĂŁo no ciclo do capital interno. Superexploração Ă© entendida aqui como caracterĂ­stica estrutural das economias dependentes e nĂŁo como fenĂŽmeno conjuntural, presente tambĂ©m nos paĂ­ses centrais como mero aumento na taxa de exploração. ​ Por fim, no capĂ­tulo 4, Luce apresenta a categoria dependĂȘncia como um desenvolvimento sui generis do capitalismo e que, portanto, engendra tendĂȘncias especĂ­ficas e particulares Ă  economia dependente. É uma categoria que sintetiza os determinantes particulares estudados atĂ© entĂŁo. É com base nesta rigorosa definição de dependĂȘncia que Ă© possĂ­vel se desamarrar das ilusĂ”es desenvolvimentistas ou etapistas, que conquistaram o coração e a mente de boa parte da esquerda latino-americana durante o sĂ©culo XX. Como essĂȘncia do marxismo, a interpretação do mundo nĂŁo Ă© fim em si mesma, mas meio para transformĂĄ-lo. De igual forma, a rigorosa teorização das condiçÔes particulares do desenvolvimento dependente latino-americano permitiu e permite analisar a conjuntura mais concreta sem incorrer nos erros interpretativos do passado. A TMD aparece, por fim, como ferramenta teĂłrica imprescindĂ­vel para a prĂĄxis socialista na AmĂ©rica Latina, pois permite uma anĂĄlise sĂłbria das relaçÔes mais concretas que perpassam as conjunturais locais. ​ O arsenal teĂłrico da TMD, levado Ă s Ășltimas consequĂȘncias da anĂĄlise social, mostra que os laços da dependĂȘncia nĂŁo podem e nĂŁo serĂŁo quebrados no marco do desenvolvimento capitalista. Somente uma revolução no modo de produção poderĂĄ romper com a estrutura dependente dos paĂ­ses perifĂ©ricos. Segundo o fio analĂ­tico da TMD, a revolução socialista nĂŁo Ă© apenas possĂ­vel como a Ășnica via capaz de romper com este ciclo de exploração e dependĂȘncia que abala a AmĂ©rica Latina. ​ Sobre o autor Mathias Seibel Luce faz parte da atual geração de intelectuais que tem feito o esforço de resgatar as bases teĂłricas da Teoria Marxista da DependĂȘncia para compreender as mazelas da nossa formação social contemporĂąnea. Formado em histĂłria, Luce Ă© docente da Escola de Serviço Social da UFRJ e pesquisador do LaboratĂłrio de Estudos sobre Marx e a Teoria Marxista da DependĂȘncia (Lemarx-TMD/UFRJ). É membro do Memorial-Arquivo Vania Bambirra (www.ufrgs.br/vaniabambirra) e, entre 2013 e 2017, foi Diretor da Seção Sindical do ANDES-SN na UFRGS.

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SugestĂ”es bibliogrĂĄficas BAMBIRRA, Vania. O capitalismo dependente latino-americano. Trad. Fernando Prado e Marina GouvĂȘa. FlorianĂłpolis: IELA/Insular, 2012. ​ FERREIRA, Carla; OSORIO, Jaime; LUCE, Mathias (orgs.). PadrĂŁo de reprodução do capital: contribuiçÔes da Teoria Marxista da DependĂȘncia. SĂŁo Paulo: Boitempo Editorial, 2012. MARINI, Ruy Mauro. DialĂ©tica da DependĂȘncia. Trad. Marcelo Dias Carcanholo. In: JoĂŁo Pedro Stedile e Roberta Traspadini (orgs.). Ruy Mauro Marini: vida e obra. SĂŁo Paulo: ExpressĂŁo Popular, 2005. MARINI, Ruy Mauro. Subdesenvolvimento e Revolução. Trad. Fernando Prado e Marina GouvĂȘa. FlorianĂłpolis: IELA/Insular, 2012.

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