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Guia de leitura #13: Psicologia, educação e desenvolvimento, de Vigotski

Atualizado: 11 de out. de 2022


Edição de Agosto de 2022


Sobre o autor


Vigotski é um grande pensador soviético e desenvolveu trabalhos em diversas áreas de conhecimento. Nasceu em Orsha, na Bielo Rússia em 1896, formou-se em Direito pela Universidade de Moscou em 1918. Durante o seu período acadêmico estudou simultaneamente Literatura e História na Universidade Popular de Shanyavskii.


Em 1925 encontra Alexander Luria e Alexei Leontiev, parceiros de trabalho importantes, pois foram os responsáveis pela disseminação de obras pioneiras da psicologia histórico-cultural. Nesse mesmo ano é convidado a trabalhar no Instituto de Psicologia da Universidade de Moscou, depois de terminar sua tese de doutorado sobre a psicologia da arte, por conta de uma conferência proferida no "II Congresso de Psicologia". Nesse período também organizou o "Instituto de Deficiências de Moscou".


Em 1926 escreve um de seus textos principais “O significado histórico da crise em psicologia”. Seus primeiros estudos foram voltados para a psicologia da arte, mas englobam posteriormente a educação, a psicologia e a defectologia. Vigotski é o fundador da psicologia histórico-cultural, junto de Alexander Luria e Alexei Leontiev, produziu cerca de 200 trabalhos científicos. Em 1925, já sofrendo da tuberculose que o mataria em 1934, publicou A Psicologia da Arte, um estudo sobre Hamlet, de William Shakespeare, cuja origem é sua tese de mestrado. Em 1936, dois anos após sua morte, toda a obra de Vygotsky foi censurada por Stalin e assim permaneceu por 20 anos.


Para finalizar a apresentação do autor, compartilhamos esse site que apresenta e organiza em categorias todas as obras de Vigotski: http://vigotski.org/


Sobre a obra


A primeira obra do eixo temático “Desenvolvimento humano: questões sobre o indivíduo e a sociedade burguesa” é um livro que reúne oito textos de períodos diferentes da trajetória de Vigotski. A primeira edição foi publicada em 2021 no Brasil pela editora Expressão Popular, sendo alguns dos textos inéditos na língua portuguesa.


No prefácio de Zoia Prestes e Elizabeth Tunes, elas escrevem que “alguns textos que compõem este livro permitem refletir sobre o papel da escola na vida contemporânea. Apesar de terem sido escritos entre 1928 e 1933, são atuais e podem contribuir com aqueles que desejam uma formação humana voltada para a diversidade e as possibilidades de desenvolvimento” (pág. 15).


Os oito artigos do livro discutem o multilinguismo na infância, o desenvolvimento cultural das crianças, a pré-história da fala e da escrita, processos pedagógicos antes e depois da escola e o papel da brincadeira no desenvolvimento psíquico. Abaixo faremos alguns comentários gerais sobre cada um dos textos contidos no livro.


Em Sobre a questão do multilinguismo na infância, Vigotski debate algumas questões sobre a fala de crianças que estão em contatos com duas ou mais línguas diferentes, situação que ocorria na União Soviética pela multiplicidade geográfica e cultural. Ele discute as pesquisas e produções teóricas de Epstein (linguista bielorusso), Stern (psicólogo e filósofo alemão), Ronjat (doutor em letras, na França), Pavlovic (linguista sérvio), entre outros, com o objetivo de investigar como a fala e o bilinguismo se relacionam com o desenvolvimento intelectual da criança, bem como o desenvolvimento de seu caráter, emoção e personalidade.


Em O problema do desenvolvimento cultural da criança, Vigotski afirma que o desenvolvimento infantil tem duas linhas principais: a linha do desenvolvimento natural do comportamento ligada aos processos orgânicos e outra do aperfeiçoamento cultural de funções psicológicas, de elaboração de novas formas de pensamento, de domínio dos meios culturais de comportamento. Ele diz que essas duas se fundem a ponto de ser difícil distingui-las e acompanhar cada uma em separado; é isso que ele busca debater no texto.


A pré-história da fala escrita. Para Vigotski, a origem dos signos escritos está atrelada aos gestos, aos primeiros rabiscos e desenhos, nas brincadeiras. Ele fundamenta seus textos em estudos realizados por Baldwin, Wurth, Hetzer, Buhler, Sully, Luria, entre outros. Discute também que a principal fragilidade do método Montessori está em considerar a escrita como uma atividade puramente muscular, o que explicaria o fracasso do método.


“A brincadeira simbólica infantil pode ser compreendida como um sistema complexo de fala com ajuda de gestos que comunicam e indicam o significado de certos brinquedos. Somente com base nesses gestos indicativos o próprio brinquedo adquire, gradativamente, seu significado, assim como o desenhar, apoiado inicialmente no gesto, transforma-se num signo independente”.


No texto Sobre a análise pedológica do processo pedagógico Vigotski questiona o papel do trabalho pedológico na escola, que tem muitas vezes um caráter de pronto-socorro. Busca definir, para isso, o que se costuma denominar com o termo “análise pedológica” e os caminhos para essa análise. Uma das exposições sobre os estudos da pedologia será trabalhada no próximo texto do livro, intitulado A dinâmica do desenvolvimento mental do escolar e a instrução. Nele, Vigotski discute como o curso do desenvolvimento mental liga-se ao êxito da criança na escola. Ele discute no texto alguns aspectos do chamado coeficiente de desenvolvimento mental, mais conhecido por QI, a partir de uma experiência de Lewis Terman, psicólogo estadunidense responsável pela popularização dos testes de QI.


No texto seguinte, A brincadeira e o seu papel no desenvolvimento psíquico da criança, Vigotski fala que a brincadeira guia o desenvolvimento na idade pré-escolar. “A brincadeira contém, como na mágica de uma lente de aumento, todas as tendências do desenvolvimento, de forma condensada; nela, a criança parece tentar dar um salto acima do seu comportamento comum”. Apesar de não negar que o brinquedo possa ter uma função de satisfazer uma necessidade ou um desejo na criança, para o autor o ato de brincar apresenta um outro papel, que é fundamental para o desenvolvimento infantil. É por intermédio da brincadeira que a criança tem acesso ao mundo imaginativo e simbólico, pois o brinquedo é uma forma de interação com a realidade que se opera, progressivamente, com o uso de signos e gestos representativos. Num primeiro instante, a brincadeira aparece num estágio de transição entre uma época onde a criança, ainda muito pequena, passa a deixar de apresentar a tendência de satisfazer seus desejos imediatamente - ou seja, surge na criança, por volta dos 2 a 3 anos, necessidades de realizar desejos irrealizáveis no plano imediato e, por isso, é a brincadeira que surge como uma forma de satisfazer esses desejos irrealizáveis de forma ilusória e imaginativa. Nesse sentido, o brinquedo atua a partir da imaginação, uma nova forma especificamente humana de atividade consciente, visto que não está presente em crianças muito pequenas e está totalmente ausente em animais.


O problema da instrução e do desenvolvimento mental na idade escolar e Instrução e desenvolvimento na idade pré-escolar


Sobre a temática apresentada nos dois últimos textos do livro, encontramos um trecho que sistematiza o conceito de instrução e o papel da educação, retirado do texto “A Educação em Vigotski: prática e caminho para a liberdade”, de Sônia Regina dos Santos Teixeira.


“Em nossa perspectiva, o conceito de instrução elaborado por Vigotski, e comentado anteriormente, permite unir dialeticamente os três elementos do processo educativo – o professor, o aluno e o meio social educativo, enfatizar o papel do professor como o organizador do meio social educativo e destacar o papel da intencionalidade pedagógica.


Outros conceitos de Vigotski, como imitação e forma ideal, este último ainda pouco discutido entre os estudiosos do autor, também poderão potencializar a relação entre instrução e desenvolvimento da personalidade consciente.


O conceito de forma ideal foi apresentado e desenvolvido por Vigotski em uma conferência sobre pedologia, conhecida como a quarta conferência ou quarta aula (Vigotski, 2017), proferida nos últimos anos de sua vida. Na perspectiva do autor, os seres humanos, desde o início dos seus processos de formação social como uma personalidade consciente, convivem com outras pessoas que já estão em fases mais avançadas de desenvolvimento. Tal relação social proporciona à pessoa no início de seu processo de desenvolvimento uma forma ideal, uma forma de modelo, que de algum modo, representa onde ela pode chegar, mas ainda não chegou.


Todos esses conceitos elaborados por Vigotski, enfatizando o caráter histórico, social, ativo e relacional do ato educativo, contribuem para a efetivação de uma educação como prática e caminho para a liberdade. Cabe ao professor organizar o meio social educativo para que ele se torne potente em formação e transformação para alunos e professores como seres humanos em processos de formação e instrução” (Teixeira, 2022).


Além dos textos de Vigotski, a edição contém um artigo de Elena Evgenievna Kravtsova sobre questões indicadas nos textos traduzidos. Essa foi uma forma de homenagear Elena, neta do autor, que morreu em 28 de março de 2020.


Obras complementares


A construção do pensamento e da linguagem, de Vigotski, 1934/2001.

A Transformação Socialista do Homem, Vigotski, 1930. Pode ser acessado em: https://www.marxists.org/portugues/vygotsky/1930/mes/transformacao.htm

Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem, Vigotski, Luria e Leontiev, 1988.


Documentários


Educadores russos ensinam crianças com deficiência auditiva e visual na cidade de Zagorsk, inspirados e baseados nas teorias do psicólogo bielo-russo Lev Vigotski (1896-1934): https://www.youtube.com/watch?v=KxEaHMxi7wE&t=14s


Uma história de vida - Lev Semionovitch Vigotski: https://www.youtube.com/watch?v=HoDd3FREYq4




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